resenha / review

Khemmis – Desolation

 

Não era uma tarefa fácil para a banda americana Khemmis fazer algo que superasse o Hunted, mas confesso que Desolation me deixou dividido na hora de escolher entre ele e o Hunted. E por mais que eu não tenha o hábito de criar uma espécie de cobrança ou nutrir expectativas em excesso, no caso da Khemmis se torna uma tarefa difícil levando em consideração como os dois discos anteriores me agradaram e conseguiram me impressionar de certa forma que não acontece com frequência.

Desolation chega oferecendo tudo aquilo que o quarteto tem de melhor: guitarras marcantes e repletas de melodias grudentas, composições que não se prendem à padrões e dinâmicas repetitivas, além de vocais cheios de feeling e um tom que casa muito bem com o instrumental.

A banda segue utilizando uma paleta de influências vindas das eras mais clássicas e tradicionais do metal além daquela pegada Doom Metal numa linha épica e melódica, mas sem necessariamente soar presa em algum estilo. Ela cria um tipo de som expansivo, que passa por momentos que você pode até notar uma influência do progressivo no som, ou então mergulhar nas influências mais extremas do grupo que vez ou outra são entregues através de passagens marcantes com riffs turbulentos e berros furiosos.

E por mais que a musicalidade do grupo seja mais do que evidente, a forma como ela consegue criar um álbum repleto de faixas que te fisgam logo na primeira audição é o que mais me chamou atenção no Desolation. Não sei se é somente pela jornada e o fato de nessa altura já conhecer bem a banda, ao ponto de que meu cérebro assimilou mais rapidamente o disco, ou se é mais por mérito dela ao criar faixas tão orgânicas e detalhadas mas que conseguem “falar” numa linguagem mais próxima do ouvinte.

E deixo uma menção especial à faixa de encerramento ‘From Ruin’, que é de longe uma das melhores faixas pelo grupo. Ela tem todo esse aspecto grandioso, é uma daquelas epopéia nas quais a banda te leva por uma série de sensações explorando as mais diversas sonoridade, tudo isso criado e conduzido de uma forma fluida e organizada.

Se antes já era difícil tentar encaixar a sonoridade da banda em um mero rótulo, Desolation torna isso ainda mais complicado. É um disco de metal acima da média que certamente vai agradar à muitos.

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BLOODMOON – SUPERVOID TRINITY

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Eu imagino que álbuns que contenham apenas uma única e extensa faixa não sejam uma novidade para vocês, pois ao longo dos anos tivemos uma série de bandas optando por tal contexto. Do clássico Dopesmoker do Sleep, passando por bandas como Boris, Corrupted, e mais recentemente, Inter Arma e Bell Witch. É algo que particularmente me interessa e que rendem boas experiências se a banda em questão conseguir aliar uma composição forte e preencher a faixa com nuances necessárias para que você não fique exausto ou mesmo sem vontade de prosseguir.

A banda americana Bloodmoon é mais uma que entra para esse grupo. Em seu segundo álbum de estúdio intitulado Supervoid Trinity, a banda entrega uma faixa grandiosa de 45 minutos. É verdade que no release digital você tem a opção de encontrar a faixa dividida em três partes ou escuta-lá na forma completa, e independente da sua escolha a sensação será a mesma, pois as faixas são apresentadas em uma forma contínua sem cortes abruptos.

Em relação à sonoridade, Suporvoid Trinity tem um processo que eu não colocaria como imediato. A construção da faixa segue padrões mais progressivos e aos poucos vai explorando os elementos do Doom Metal, Sludge e metal extremo, com a sobreposição e contraste de estilos sendo explorada de duas formas bem definidas. De um lado temos passagens candenciadas com arranjos mínimos no instrumental e vocais atuando na forma de cânticos, criando uma espécia de mantra sombrio com leves toques de psicodelismo. Do outro, temos espamos agressivos onde o instrumental pesado e berros ásperos elevam a sensação de loucura e angústia reproduzida pela atmosfera do disco. E embora ambos os momentos sejam construídos de forma calculada e apresentem característcas que me agradaram, em alguns momentos eu achei que o álbum se arrastou demais em algumas dessas transições. Mas isso é mais uma questão de gosto pessoal, imagino que para alguns isso não vá causar nenhum tipo de problema em relação à execução o disco.

Se você estiver à procura de um álbum imediato e que vá jogar tudo o que tem à oferecer logo no começo, você provavelmente vai se sentir um pouco deslocado com o álbum. Caso esse não seja o seu caso, há muitos aspectos positivos no Supervoid Trinity, principalmente se você aprecia essas variáveis do Doom Metal que exploram linhas progressivas e vertentes extremas do Metal.

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Agrimonia – Awaken

Awaken é o novo álbum de estúdio da banda sueca Agrimonia. Lançado no dia 26 de Janeiro via Southern Lord Records, o álbum encerrou o período de cinco anos de espera desde o lançamento do ótimo Rites of Separation.

Correndo o risco de soar clichê, eu diria que a esperava valeu à pena. Awaken é o mais ambicioso e também o disco mais diversificado da banda, que sempre demonstrou uma certa queda por experimentar uma coisinha ou outra tirada de estilos diferentes, mas nunca chegou no ponto demonstrado em Awaken, que escapa daquela combinação densa e brutal entre Sludge e Crust dos primeiros discos.

É até complicado tentar descrever tudo aquilo que você encontrará nele, há momentos em que a banda se aproxima daquilo encontrado em abordagens atmosféricas dentro do Sludge e Black Metal, já em outros, seguindo linhas mais melódicas do Death e Death/Doom e com as influências do Prog Metal sendo bastante nítidas no decorrer do álbum. Faixas como “Foreshadowed” e “Withering” são belos exemplos de como a banda consegue se apresentar em grande harmonia mesmo utilizando uma paleta musical diversificada, entregando passagens pesadas mas que prezam pelas composições bem elaboradas, com uma riqueza de texturas e detalhes que impedem o álbum se arrastar através de repetições desnecessárias.

E particularmente, por mais que os trabalhos anteriores da banda sejam muito apreciados por mim, é bom ver como ela evoluiu e soube se expressar com criatividade dentro dessa nova roupagem que nos presenteou com faixas épicas como a “The Sparrow”, que é na minha opinião uma das melhores já criadas pelo grupo sueco, unindo o instrumental pesado e atmosférico, com paisagens sonoras melancólicas e outros momentos que parecem ter saído de um sonho, ganhando vida através dos guturais ríspidos e expressivos da vocalista Christina Blom .

Awaken é um ótimo lançamento, talvez um pouco diferente do que eu esperava encontrar em termos de estilo vindo da Agrimonia, mas acabou sendo uma experiência no mínimo surpreendente. O meu lançamento favorito do mês de Janeiro!

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Earth Drive – Stellar Drone

Formada em 2007, a banda portuguesa Earth Drive é algo que havia passado fora do meu radar na época do lançamento do EP Planet Mantra. Mas felizmente esse cenário não se repetiu com o lançamento do novo disco Stellar Drone, lançado no dia 20 de Outubro via Raging Planet.

A banda consegue reunir elementos de diferentes estilos e combiná-los de uma forma coesa e bastante agradável. O contraste entre texturas, ambientações e sonoridades, consegue soar nítido e eficiente, sem a necessidade de se apoiar em inserções que fujam da química apresentada pelo grupo ao longo do álbum.

Stellar Drone consegue emplacar faixas com instrumental esmagando nossas mentes devido ao seu peso exacerbado, dinâmica intensificada e ritmos repletos de densidade, como na faixa “Known By The Ancients”. No meio dessa parede sonora envolvente e massiva, surge o vocal inconfundível e contagiante da Sara Antunes, que se mostra versátil e segue o fluxo do álbum, entregando passagens passionais e inspiradas que certamente dão ainda mais brilho às composições agradáveis e deslumbrantes.

Em “Two Temple Place” podemos mergulhar ainda mais dentro dessa atmosfera cósmica e transcendente criada pelo grupo, assim como sua paleta musical variada. A união de passagens incrivelmente hipnóticas e com requintes psicodélicos mais do que o suficientes para transportar sua mente à outra dimensão, se fundem com passagens carregadas de peso. E outro destaque fica por conta da faixa título, onde influências do progressivo ficam ainda mais aparentes, assim como uma atmosfera que vai se acentuando e elevando o fator de imersão existente na faixa. Eu raramente consigo exemplificar com clareza esse tipo de coisa, mas acredito que fãs de Tool e Isis na fase do Wavering Radiant, se identificarão muito com essa faixa.

E para mim a melhor característica em relação ao Stellar Drone, é como o álbum evolui a cada audição. E não é nem pelo fator de assimilação que digo isso, uma vez que você entra em contato com a química e fórmula do grupo, a tendência é que sua mente se expanda nas mesmas proporções que ocorrem com a música, ainda mais se você aprecia bandas com texturas mais diversas e variações graduais.

Altamente recomendado!